RELEMBRANDO A BOMBA DO RIO CENTRO

RELEMBRANDO A BOMBA DO RIO CENTRO

 

Foi na passagem de um dia 30 de abril para 1 de maio, que em 1981 ocorreu o frustrado ataque terrorista militar, que expôs o governo da ditadura ao seu momento mais ridículo.

 

O alvo era o show do Dia do Trabalhador que começaria na noite de 30 de abril e reuniria vários expoentes da MPB e que foi assistido por mais de 10 mil pessoas, na maioria jovens como eu, na época com 19 anos.

 

O esquema todo montado, em um momento que o governo militar anunciava que haveria uma abertura democrática no Brasil de forma “lenta, gradual e segura” e ao mesmo tempo, por baixo dos panos, explodiriam bombas no show para logo após culpar o movimento de esquerda e com isto, ter uma boa desculpa para enterrar a abertura e fechar o regime. Tanto que ao longo do caminho picharam várias placas de trânsito com a sigla VPR, um grupo guerrilheiro de esquerda que havia sido extinto anos atrás e que não havia ressuscitado e sim, serviria de bode expiatório para o atentado. Era assim que justificam as várias bombas que explodiam na época.

 

O esquema de segurança do show foi dissolvido na véspera pelo comando da PM fluminense, com a ordem partindo do coronel Newton Cerqueira, ao mesmo tempo que era dada a estranha ordem de serem mantidos mais de 60 policiais de prontidão nos quartéis para “qualquer emergência”. O quadro da tragédia estava montado.

 

As 21 horas o show começou e no estacionamento, dentro de um puma, o capitão Wilson Luis Chaves Machado e o sargento Guilherme Pereira do Rosário, ambos do DOI carioca portando a bomba. Mais dois carros os acompanhava também com bombas para serem explodidas em outros locais.

E aí ocorre o erro, a bomba explode no colo do sargento Rosário que morre na hora, enquanto o capitão Machado embora com um rombo na barriga, continua vivo e consegue fugir pedindo ajuda a um casal que chegava ao show e pasmem, era Sergio Valle e sua namorada Andréa Neves, neta do senador de oposição Tancredo Neves que viria no futuro, ser alvo de uma estranha morte não assumindo a presidência do país após o fim da Ditadura.

 

O show transcorreu normalmente só ao final que Gonzaguinha informou o que havia acontecido.

 

O caso tentou ser abafado, mas não teve como. Eu, soldado na época, peguei 5 dias de detimento pelo simples fato de ter perguntado ao tenente do Almoxarifado onde cumpria expediente, o que ele faria neste caso sendo tenente R2 e ao mesmo tempo, estudante de jornalismo: ele não me respondeu, a resposta veio depois com meu detimento.

 

Hoje vejo triste muitos jovens apoiando este regime que não conheceram e que tem tantas histórias e mazelas a serem contadas e tantas outras encobertas e apagadas, com o ingênuo argumento que havia uma guerra.

 

Mas enfim... vivemos outros tempos e o próprio General Newton Cruz, há muito reformado, deixou bem claro em entrevista na GloboNews: “não há porque os militares voltarem ao poder, não em um Brasil de hoje...” e pelo jeito querem mudar o “Brasil de hoje” e estão conseguindo.

Só para registro e triste lembrança.

Fecha o pano.